
André Luís Vieira
Advogado
Dietrich Bonhoeffer
Vivemos, com espanto e tristeza cívica, a era das narrativas. Um tempo em que a disputa pela definição oficial da realidade aspira substituir a própria realidade fática. Fala-se, com desassombro, em Estado de Direito enquanto se renuncia, na prática, aos fundamentos lógicos que o sustentam. O Estado moderno avança rápida e ferozmente sobre a tutela das liberdades individuais e coletivas, a fidelidade objetiva à Constituição e à legalidade democraticamente deliberada. E isso acontece enquanto o Estado de Direito (rules of law) nada mais deveria ser do que freio aos arroubos do poder e agente de harmonização das relações sociais.
Exalta-se, com fervor, o Estado Democrático de Direito, mas democracia não se resume ao rito eleitoral. Trata-se de limitação do jus imperi. Trata-se do governo sob leis escolhidas pela vontade da maioria, resguardadas as liberdades e garantias das minorias. Por isso, o ativismo jurisdicional, quando hipertrofiado, tampouco é sinônimo de Estado de Direito ou de Estado Democrático, pois a ciência jurídica se ancora, antes de tudo, na lei debatida e votada sob publicidade e responsabilidade políticas, não na plasticidade de agendas ideológicas momentâneas.
É justamente por isso, que a primeira narrativa hegemônica consiste em fazer crer que o processo legislativo, por si, bastaria para garantir a democracia material. Não basta. A captura oligárquica de preferências, o clientelismo tecnicamente travestido de “governabilidade”, o escambo opaco de favores institucionais — tudo isso converte o que deveria ser deliberação republicana em balcão de trocas, dissolvendo a legitimidade de origem na ilegitimidade de exercício. Nessa constatação espúria, a retórica democrática funciona como biombo para a negociação de interesses inconfessáveis.
Outra narrativa, não menos sedutora, diz respeito à soberania. Invoca-se a “soberania” com fervor performático ao mesmo tempo em que se fratura a efetividade do mando estatal sobre parcelas importantes do território nacional. Soberania, porém, não é talismã; é prática institucional. Um Estado que não se mostra capaz de guardar a sua Constituição e exercer a sua jurisdição — inclusive e sobretudo em zonas sensíveis como a Amazônia — não se fortalece por proclamações inflamadas: desmoraliza-se.
Relatórios oficiais e relatos jornalísticos vêm assinalando, de forma recorrente, a presença de organizações criminosas no interior do território amazônico com capacidade de interditar rotas fluviais, operar pistas clandestinas e impor sua própria “normatividade” violenta. Some-se a isso a simbologia de agendas globalistas e interesses estrangeiros que, no mais das vezes, transitam na região amazônica com ares de superioridade moral (o desfile de boas intenções em conferências climáticas, visitas protocolares, campanhas de prestígio), ao mesmo tempo em que o país patina entre o déficit de projetos hidroelétricos sustentáveis e a insistência em termelétricas fósseis.
É o paradoxo da governança por slogans: culpa-se a flatulência do rebanho enquanto se posterga uma política energética racional, tecnicamente consistente e constitucionalmente comprometida com o desenvolvimento socioeconômico de longo prazo.
É nesse ponto que um aviso histórico, ainda válido, reaparece com perturbadora nitidez. A “teoria da estupidez” de Dietrich Bonhoeffer emerge de um texto curto e incisivo, o memorando Nach zehn Jahren (“After Ten Years”), redigido no Advento de 1942 e depois integrado a Letters and Papers from Prison. Nele, o teólogo alemão, então já comprometido com a resistência ao regime nacional-socialista, procura nomear a patologia ético-política que, a seus olhos, explicava melhor do que a “maldade” pura e simples a aderência coletiva ao totalitarismo. É ali que formula a sua tese mais célebre: “a estupidez é inimiga mais perigosa do bem do que a maldade”.
A chave da análise é sociológica e moral. Bonhoeffer insiste que a estupidez não se confunde com baixo quociente intelectual, nem com deficiências inatas. Trata-se de processo que sob certas condições sociais, sobretudo sob o feitiço de retóricas avassaladoras e de sociabilidades de massa, “as pessoas são tornadas estúpidas ou deixam que isso lhes aconteça”. A “estupidez”, assim entendida, se torna uma forma de heteronomia, sob a qual perde-se a independência individual, delega-se o juízo valorativo, passa-se a repetir slogans e “fatos” de empréstimo, impermeáveis a razão e provas em contrário. Por isso, diz Bonhoeffer, diante dela os argumentos fracassam e até fatos flagrantes escorregam como água sobre pedra.
Daí sua periculosidade específica. Contra o mal, ainda se pode protestar, desmascarar, coagir; o mal traz em si o “germe de autossubversão”, porque deixa ao menos resíduos de incômodo na consciência. Já a estupidez, por fazer do indivíduo instrumento satisfeito com o que quer que o poder comande, é refratária à refutação e serve a qualquer discurso, inclusive o mais iníquo, sem reconhecer o mal como mal. É por isso que a estupidez “desarma” a razão pública e anula a responsabilidade individual.
A estupidez, nessa acepção, é operação psicológica sobre a consciência coletiva, ao terceirizar-se o pensamento, externalizar-se a responsabilidade, passando o indivíduo a repetir a ortodoxia de ocasião com a serenidade de quem está “praticando o bem”. Eis a engrenagem íntima do governar por narrativas: quando a pertença importa mais do que a verdade, a retórica substitui a prova; quando a mensagem vale mais do que a norma, a publicidade suplanta a própria Constituição.
Não por acaso, o controle das narrativas oficiais, quando se converte em método de governo, mimetiza a lógica do estelionato eleitoral. Promete-se, no ciclo de formação da vontade popular, um conjunto de fins e meios; uma vez conquistado o mandato, reescreve-se a pauta, reinterpreta-se a realidade, e a “publicidade” governamental passa a operar como mecanismo de reconfiguração ex post do consentimento popular.
O eleitor, que autorizou uma direção, vê-se arrastado por outra, enquanto a máquina simbólica fabrica justificativas morais para a incongruência. O resultado é corrosivo: confunde-se a legitimidade plebiscitária com licença para redefinir, por propaganda, aquilo que as instituições deveriam garantir por dever de fidelidade institucional ao ordenamento constitucional.
Tal crítica, convém sublinhar, não se satisfaz com culpas difusas. Dirige-se a arranjos concretos de poder e de comunicação que recompensam o seguidismo acrítico e punem a autonomia crítica. A psicologia social e a neurociência modernas apenas refinam, com linguagem empírica, o que Bonhoeffer já intuía sob a forja do regime nacional-socialista: pensar pesa biologicamente; decidir repercute socialmente; sustentar nuances custa politicamente. Daí a tentação permanente de terceirizar o discernimento e aderir ao conforto da certeza do pertencimento social, uma hipótese de coletivismo prêt-à-porter.
A tecnologia contemporânea exponencializa esse contexto. Plataformas que monetizam atenção recompensam conteúdos de alto engajamento e baixo escrutínio — medo, ira, indignação — e constroem bolhas de confirmação que devolvem à consciência não a realidade, mas a sua caricatura mais funcional ao engajamento. O cidadão previsível é o consumidor ideal, o eleitor manejável, o sujeito dócil, o homem médio.
Não são necessários déspotas quando designers de interface, influencers e veículos midiáticos alinhados desempenham, com sutileza, a mesma função disciplinar a massa, governando-a por reações. O algoritmo não decreta; inclina. Não impõe; vicia. E, inclinando, naturaliza o que deveria ser discutido; viciando, banaliza a resistência ao absurdo.
Sob esse prisma, a pedagogia republicana das virtudes — coragem cívica, moralidade pública, responsabilidade — deixa de ser ornamento moral para se tornar antídoto institucional. É preciso reconstituir as verdades públicas nas quais a prova prevaleça sobre o frame, o argumento sobre o slogan, a legalidade sobre a conveniência ideológica.
Isso implica, do lado do Estado, compromisso incontornável com a Constituição (não apenas como texto simbólico, mas como programa operativo), com a transparência sem eufemismos, com a publicidade que informa em vez de catequizar, com o contrapeso recíproco entre poderes que refreie a impulsão hegemônica das narrativas oficiais. Implica, do lado da sociedade, educação da dúvida honesta, disciplina de leitura, cultivo do silêncio reflexivo, ou seja, tudo aquilo que a lógica do feed não monetiza e que o “politiquismo” não tolera.
A soberania também se mede por essa régua de sobriedade institucional. Não se protege o país com retóricas performáticas, mas com jurisdição efetiva, força legítima disciplinada por direito, política energética racional, defesa da integridade física do território e liberdade informacional. Entre a encenação de virtude global e a omissão em deveres elementares (segurança cidadã, controle de fronteiras, planejamento estratégico de longo prazo, racionalidade em políticas setoriais), triunfa, inevitavelmente, o cinismo estrutural. E tal cinismo é o solvente de legitimidade, é o agente propagador do nosso estado inconstitucional de coisas.
Bonhoeffer ensinou que contra a estupidez não bastam lições; exige-se libertação, mediante o restabelecimento da autonomia interior capaz de suportar o custo de não aplaudir, de não pertencer. Em linguagem secular, isso significa reerguer sujeitos que respondam por si perante a lei e diante da comunidade, e redesenhar instituições que não convertam comunicação pública em catecismo oficial. Resistir às narrativas não é hostilidade ao governo; é lealdade ao Estado Democrático de Direito.
A alternativa, todos a conhecemos: aderir ao coro, dormir o sono narcótico da certeza fabricada, naturalizar o descompasso entre promessa e prática como se fosse “normalidade democrática”. Chamar isso de democracia é aviltar a luta histórica dos últimos vinte ou trinta séculos. Pensar e exigir que o poder opere sob a égide da Constituição não pode ser caracterizado como um gesto subversivo, mas, ao contrário disso, um dever republicano. Se há algum preço por mantê-lo, é o preço da liberdade; se há risco em recusá-lo, é o risco da servidão voluntária travestida de consenso.
Assim, enquanto a política apostar mais na coreografia das narrativas do que na gramática das instituições, a democracia será caricatura de si mesma. E espetáculos, como se sabe, vivem de aplausos; repúblicas vivem de limites institucionais e prosperidade moral. Entre ambos, é preciso escolher. E Dietrich Bonhoeffer ainda nos pergunta, do fundo de sua cela mortuária: você ainda está pensando? A resposta — pessoal e institucional — é o único antídoto contra o grande estelionato simbólico do nosso tempo.


