Não acompanho os debates vazios sobre os impactos da Inteligência Artificial. Eles tendem a oscilar entre a euforia ingênua e o pânico moral, sem enfrentar o que realmente importa: as transformações estruturais na forma como produzimos sentido, trabalho, autoridade e conhecimento.
Minha reflexão está mais alinhada a pensadores como Yuval Noah Harari, especialmente em 21 Lições para o Século 21, onde a IA não aparece como fetiche tecnológico, mas como força histórica capaz de reconfigurar a própria condição humana.
É a partir desse lugar — menos tecnológico e mais filosófico, político e cultural — que proponho esta reflexão.
Tese central: a IA não ameaça o conhecimento; ameaça a relevância humana mal fundamentada
A Inteligência Artificial generativa — da qual o ChatGPT é hoje o exemplo mais visível — não inaugura apenas uma nova ferramenta. Ela inaugura um novo regime de abundância cognitiva.
Quando qualquer pessoa pode:
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redigir textos coerentes,
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resumir livros,
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estruturar projetos,
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gerar imagens,
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simular argumentos,
o problema deixa de ser acesso à informação e passa a ser capacidade de formular sentido, hierarquia e propósito.
A ameaça real não é “a IA pensar por nós”.
É nós abrirmos mão de pensar, terceirizando não apenas tarefas, mas critérios.
O contraponto necessário: produtividade não é inteligência
É inegável — e seria desonesto negar — que a IA é uma aliada poderosa da produtividade. Ela:
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reduz atrito operacional;
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acelera processos criativos;
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amplia capacidades individuais.
Nesse sentido, não a vejo como inimiga, mas como infraestrutura cognitiva.
O erro recorrente está em confundir:
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velocidade com profundidade,
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fluência com compreensão,
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produção com pensamento.
A IA escreve bem.
Mas não vive consequências.
Não responde politicamente pelo que produz.
Não constrói reputação, legado ou responsabilidade histórica.
Esses continuam sendo atributos humanos — por enquanto.
O livro não está morrendo. Está mudando de função
Muito se fala no “fim do livro”. O diagnóstico é raso.
O que está em crise não é o livro enquanto forma, mas o livro enquanto repositório exclusivo de informação. Num mundo saturado de textos, vídeos, resumos e opiniões instantâneas, o leitor comum rejeita o que chama de “textão”.
Mas isso não elimina o livro.
Ele o reposiciona.
O livro relevante hoje é:
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curadoria, não acúmulo;
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interpretação, não transcrição;
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estrutura de pensamento, não fluxo solto de dados;
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autoridade intelectual, não ruído.
O livro deixa de ser apenas algo que se lê.
Passa a ser algo que organiza, ancora e legitima.
Harari e a “classe dos irrelevantes”: provocação ou advertência?
Quando Harari fala na possibilidade de bilhões de pessoas se tornarem economicamente “irrelevantes”, ele não descreve um futuro automático, mas um risco político e social concreto.
A irrelevância não nasce da tecnologia em si, mas da combinação de:
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automação acelerada,
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educação desatualizada,
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instituições lentas,
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e ausência de projetos coletivos de transição.
O verdadeiro abismo não é entre humanos e máquinas.
É entre:
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quem sabe formular problemas, e
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quem apenas executa tarefas automatizáveis.
O papel do livro, da editora e do intelectual no século XXI
Num mundo em que a informação é abundante e a atenção é escassa, o valor desloca-se para:
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curadoria qualificada,
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contexto,
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responsabilidade intelectual,
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comunidades de sentido.
O livro — especialmente o livro técnico, científico, institucional e ensaístico — deixa de ser produto isolado e passa a integrar ecossistemas de pensamento:
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livros,
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artigos,
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eventos,
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cursos,
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debates,
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memória institucional.
Nesse cenário, editoras que se limitarem a “produzir conteúdo” tendem à irrelevância e ao desaparecimento.
Permanecerão — e se tornarão ainda mais necessárias — aquelas que, como a Synergia, assumem funções mais amplas e decisivas: mediadoras de sentido, guardiãs da qualidade editorial, curadoras criteriosas do conhecimento e propositoras de obras com densidade intelectual e impacto público, capazes de construir relevância, memória e legado em um século marcado pela sobrecarga informacional e pela fragilidade dos critérios.
A Inteligência Artificial não elimina o humano.
Ela expõe o humano que já não sabe por que faz o que faz.
E talvez essa seja a sua função histórica mais incômoda — e, justamente por isso, a mais necessária.
Jorge Gama


