A revisão de um episódio decisivo da medicina mostra por que informação responsável, avaliação individualizada e diálogo são essenciais — temas que atravessam o livro Menopausa: nem pausa, nem final, de Alba Lucía Mosquera.
Um alerta que se transformou em medo
Durante mais de duas décadas, a terapia hormonal da menopausa foi cercada por um temor que ultrapassou os limites das evidências científicas. Uma matéria publicada pelo Estadão, assinada por Luciana Garbin, recupera a história de como a divulgação e a interpretação de um grande estudo contribuíram para demonizar o tratamento e afetar a vida de milhões de mulheres.
O episódio teve origem no Women’s Health Initiative (WHI), programa iniciado em 1998 pelo governo dos Estados Unidos para investigar riscos e benefícios da terapia hormonal em mulheres na pós-menopausa. O ensaio reuniu cerca de 27 mil participantes: 16.608 mulheres com útero receberam estrogênio associado a progestina ou placebo; outras 10.739, submetidas à histerectomia, receberam apenas estrogênio ou placebo.
Em 2002, o braço da terapia combinada foi interrompido antes do prazo previsto após a identificação de um pequeno aumento do risco de câncer de mama, além de outros desfechos que exigiam cautela. O estudo também registrou redução de fraturas e de câncer colorretal. O braço de estrogênio isolado não mostrou aumento de câncer de mama, mas também foi encerrado antecipadamente diante de indícios de maior risco de acidente vascular cerebral. O problema surgiu quando resultados distintos, de regimes diferentes, passaram a ser condensados numa mensagem única e assustadora, aplicada a todas as mulheres e a todas as modalidades de terapia hormonal.
A idade média das participantes era de aproximadamente 63 anos — mais de uma década acima da idade em que geralmente ocorre a menopausa. Muitas começaram a terapia anos depois da última menstruação. Além disso, o objetivo central do estudo não era simplesmente avaliar o alívio dos sintomas no início da transição menopausal, mas investigar a prevenção de doenças crônicas em mulheres na pós-menopausa.
Essas diferenças são decisivas. Idade, tempo transcorrido desde a menopausa, histórico clínico, presença ou ausência do útero, tipo de hormônio, dose e via de administração interferem na relação entre benefícios e riscos. Ainda assim, a mensagem que chegou ao público foi muito mais simples e assustadora: hormônios causariam câncer, infarto, acidente vascular cerebral e demência.
Quando a comunicação científica também produz consequências
O impacto foi imediato. Segundo os dados citados pela reportagem do Estadão, entre 70% e 80% das mulheres que já utilizavam hormônios deixaram de renovar suas receitas. Nos Estados Unidos, a proporção de mulheres que usavam terapia hormonal teria caído de aproximadamente 27%, há duas décadas, para 5% em 2020. Médicos deixaram de prescrever; novas gerações de profissionais receberam pouca formação sobre menopausa; e sintomas capazes de comprometer o sono, a sexualidade, a saúde emocional, o trabalho e as relações pessoais voltaram a ser tratados como algo que deveria ser simplesmente suportado.
Não se trata de afirmar que o WHI foi inútil ou de negar os riscos da terapia hormonal. O estudo trouxe informações relevantes e corrigiu a ideia, então disseminada, de que hormônios deveriam ser usados indiscriminadamente para prevenir doenças crônicas. O erro histórico esteve na generalização: resultados de um regime específico, observado sobretudo em mulheres mais velhas, foram estendidos a diferentes idades, indicações, doses, formulações e vias de administração.
A história mostra que a ciência não termina na produção de dados. Ela depende também da maneira como os resultados são interpretados, contextualizados e comunicados. Quando desaparecem as diferenças entre risco relativo e risco absoluto, entre associação e causalidade, ou entre grupos clínicos distintos, uma advertência necessária pode se transformar em medo coletivo.
O que mudou
Reanálises e estudos posteriores permitiram uma leitura mais individualizada. Hoje, sociedades médicas reconhecem que a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores, como fogachos e suores noturnos, e também pode ser utilizada em outras manifestações da menopausa, conforme avaliação clínica.
Para muitas mulheres saudáveis, sintomáticas, com menos de 60 anos ou que iniciam o tratamento até dez anos depois da menopausa, a relação entre benefícios e riscos pode ser favorável. Isso não equivale a recomendar hormônios para todas. Mulheres com determinados tipos de câncer, sangramento sem causa esclarecida, histórico de trombose, infarto, acidente vascular cerebral ou doença hepática, entre outras condições, precisam de avaliação particularmente cuidadosa e podem ter contraindicação.
Em 10 de novembro de 2025, a agência reguladora norte-americana FDA iniciou a retirada das advertências máximas, conhecidas como black box warnings, que desde 2003 haviam sido aplicadas de forma ampla aos produtos hormonais. Em fevereiro de 2026, foram aprovadas as primeiras mudanças de bula. A medida reconhece a necessidade de comunicar riscos com maior precisão, distinguindo produtos, vias de administração e perfis de pacientes. Isso não elimina o acompanhamento médico nem transforma a terapia hormonal em solução universal ou em tratamento preventivo indicado indiscriminadamente.
Informação também é cuidado
A discussão científica dialoga diretamente com uma questão humana: quantas mulheres sofreram em silêncio por acreditarem que seus sintomas eram exagero, fraqueza ou consequência inevitável da idade? Quantas deixaram de procurar orientação por medo? Quantas sequer aprenderam a reconhecer a perimenopausa, fase que pode começar anos antes da última menstruação?

Esse silêncio é um dos eixos de Menopausa: nem pausa, nem final, de Alba Lucía Mosquera, publicado no Brasil pela Synergia Editora. A autora colombiana parte da própria experiência para mostrar que a transição menopausal não se limita às mudanças hormonais. Ela atravessa corpo, mente, emoções, identidade, relações e projetos de vida.
Alba conta que começou a buscar respostas depois de perceber que já vivia havia anos uma transição para a qual não havia sido preparada. Sintomas, ansiedade, sobrecarga e mudanças pessoais pareciam acontecimentos isolados até adquirirem um nome e um contexto. Ao compreender o processo, ela transforma sua experiência em conversa, acolhimento e propósito.
O livro não pretende substituir consulta, diagnóstico ou tratamento. Sua força está em romper o isolamento e oferecer linguagem para aquilo que tantas mulheres sentem, mas nem sempre conseguem explicar. Informação médica responsável e narrativa pessoal cumprem papéis diferentes, porém complementares: a primeira orienta decisões seguras; a segunda permite reconhecimento, pertencimento e coragem para buscar ajuda.
Nem pausa, nem final
A história da terapia hormonal revela duas formas de silêncio. A primeira nasce quando a ciência é comunicada sem contexto e o medo ocupa o lugar do diálogo. A segunda surge quando experiências femininas são minimizadas e milhões de mulheres passam a acreditar que precisam enfrentar sozinhas uma transformação profunda.
Corrigir esse percurso não significa trocar um dogma por outro. Nem demonizar nem idealizar a terapia hormonal. Significa reconhecer que cada mulher possui uma história clínica, um conjunto de sintomas, necessidades e escolhas. A decisão deve ser compartilhada com profissional habilitado, baseada em evidências atualizadas e reavaliada ao longo do tempo.
Ao trazer a menopausa para o centro da conversa, Alba Lucía Mosquera participa desse movimento de reconstrução. Seu livro propõe que essa passagem seja vivida não como desaparecimento, mas como oportunidade de compreensão e florescimento. Como resume o próprio título, a menopausa não precisa representar uma pausa — e muito menos um final.
Conheça o livro
Menopausa: nem pausa, nem final, de Alba Lucía Mosquera, é um convite para compreender essa etapa a partir do corpo, da mente e das emoções — com informação, honestidade e acolhimento.
Referências e leitura complementar
GARBIN, Luciana. Menopausa: como um erro demonizou a terapia hormonal e afetou a vida de milhões de mulheres. Estadão. Disponível em: https://www.estadao.com.br/cultura/luciana-garbin/menopausa-como-um-erro-demonizou-a-terapia-hormonal-e-afetou-a-vida-de-milhoes-de-mulheres/.
U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. HHS Advances Women’s Health, Removes Misleading FDA Warnings on Hormone Replacement Therapy. 10 nov. 2025.
U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. FDA Approves Labeling Changes to Menopausal Hormone Therapy Products. 12 fev. 2026.
THE MENOPAUSE SOCIETY. Hormone Therapy Position Statement. 2022.
MOSQUERA, Alba Lucía. Menopausa: nem pausa, nem final. Rio de Janeiro: Synergia Editora, 2026.
Nota editorial: Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada. A terapia hormonal possui benefícios, riscos e contraindicações que devem ser analisados por profissional habilitado.

