O petróleo foi o pilar da economia e da segurança energética no século XX, moldando alianças, conflitos e hierarquias de poder. No século XXI, porém, as dinâmicas de energia não se restringem mais ao simples controle de reservas: elas se entrelaçam com tecnologia, minerais críticos, redes de infraestrutura e, sobremaneira, com a geopolítica de grandes potências. A transição energética, longe de significar o fim das disputas, desloca o centro das tensões para diferentes arenas e atores.
As tensões recentes entre os Estados Unidos e outras potências — notadamente Europa, China e Rússia — demonstram esse deslocamento em tempo real. No início de 2026, os Estados Unidos conduziram uma intervenção militar na Venezuela que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, e na sua condução a solo norte-americano para enfrentar acusações federais, incluindo as de “narcoterrorismo”. A Casa Branca anunciou que manterá presença política e operacional no país até que ocorra uma “transição segura e judiciosa”, incluindo a participação de grandes empresas petrolíferas norte-americanas na recuperação da indústria energética venezuelana.
Essa ação gerou condenações de países europeus, do Brasil, da China e da Rússia, que classificaram a operação como uma clara violação do direito internacional e da soberania venezuelana — algo que reacende debates sobre intervenção, direito e ordem global.
No Fórum Econômico Mundial em Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou esses temas. Ao mesmo tempo em que celebrou a operação na Venezuela, afirmou que os EUA têm interesse estratégico na aquisição diplomática (não militar) da Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca rico em localização geoestratégica e potencialmente em recursos naturais. Trump argumentou que os EUA seriam os mais aptos a “proteger” a ilha por razões de segurança nacional e internacional.
Esse esforço suscitou forte reação internacional. Países europeus e organismos internacionais destacaram que a proposta de anexação — ainda que declarada oficialmente como negociada — afronta normas de soberania e pode abalar relações dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), além de interferir no processo delicado de autodeterminação do povo groenlandês. Autoridades do território afirmam que pretendem preservar sua autonomia e identidade cultural, rejeitando qualquer anexação externa forçada.
Esse conjunto de eventos — Venezuela e Groenlândia — não pode ser lido de forma isolada: ele insere-se em uma competição geopolítica ampla, na qual os EUA interpretam sua estratégia de segurança hemisférica não apenas como domínio energético tradicional, mas como resposta às influências crescentes de China e Rússia em múltiplas regiões. Analistas observam que, em contraposição às ações unilaterais dos EUA, tanto a Rússia quanto a China têm procurado fortalecer alianças pragmáticas, aproveitar descontentamentos com a política externa norte-americana e oferecer-se como parceiros mais previsíveis para o mundo em desenvolvimento — incluindo laços econômicos e diplomáticos em torno de energia e infraestrutura.
A chamada “nova ordem global” tende, portanto, a ser definida por uma metade de tensões abertas — como as intervenções e confrontos diplomáticos — e outra metade de competições sutis por favor político, investimentos e influência estratégica. Para o Brasil, esse quadro tem implicações diretas.
Como potência regional com grande participação em mercados energéticos (inclusive de petróleo e biocombustíveis), o Brasil é pressionado a equilibrar relações:
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com os Estados Unidos, dada a proximidade geográfica e parcerias comerciais;
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com a China, já um dos maiores compradores de commodities brasileiras;
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e com a União Europeia e outras potências, cujo apoio às normas internacionais e ao multilateralismo contrasta com as ações unilaterais de Washington.
Nessa rearrumação de poder, o Brasil pode tanto fortalecer sua estratégia de autossuficiência energética e diversificação de parceiros quanto desempenhar um papel de mediador pragmático em foros multilaterais, defendendo a estabilidade normativa e as regras do direito internacional diante de resquícios de política imperialista e dominação histórica.
Observações de impacto geopolítico global
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Venezuela: A intervenção norte-americana destaca como o petróleo ainda é um vetor de disputa, mesmo em um cenário de transição energética — as reservas venezuelanas permanecem estratégicas para consumo e logística.
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Groenlândia: A disputa pela ilha, além de recursos, reflete a importância do Ártico no novo “Great Game”, com rotas marítimas, posições militares e controle de espaços estratégicos em foco.
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China e Rússia: Enquanto Washington reforça ambições hegemônicas clássicas, Pequim e Moscou optam por discursos de estabilidade, cooperação e políticas de longo prazo, buscando consolidar sua influência no Sul Global.
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Brasil: Ao se posicionar num cenário fragmentado, o país enfrenta o desafio de defender soberania, comércio e ordem normativa — calibrando relações com grandes potências e participando ativamente de instâncias multilaterais.
A geopolítica do século XXI não inaugura um novo caos mas reconfigura o antigo. Energia continua no centro das disputas, mas agora em combinação com tecnologia, clima, minerais e alianças estratégicas. O papel dos Estados Unidos, como ainda dominante mas contestado, opera em tensionamentos que reativam debates sobre soberania, ordem internacional e o futuro de blocos regionais. Para o Brasil, compreender e atuar nesse quadro exige capacidade estratégica, diplomacia equilibrada e protagonismo em arenas multilaterais. Infelizmente o que se vê é a falta de tudo isso. A estratégia é substituída pela necessidade de mitigar os impactos de sucessivos escândalos de corrupção em que o Brasil tem um incompetência hábil. O escândalo da vez é o do Banco Master, considerado pelo ministro da Fazenda como a maior fraude bancária de todos os tempos e um monte de gente importante envolvida, incluído ministros do STF e seus familiares. O caos no Brasil é outro – a corrupção institucionalizada.
Jorge Gama
Editor


