O debate sobre “cola” com inteligência artificial esconde uma transformação muito maior: a crise do trabalho intelectual, do modelo escolar e da própria produção do conhecimento.
“Os computadores são inúteis. Eles só podem dar respostas.”
Pablo Picasso
“A formulação de um problema é frequentemente mais importante do que sua solução.”
Albert Einstein
Poucas vezes na história uma tecnologia obrigou a humanidade a repensar tantas certezas em tão pouco tempo.
- A escrita transformou a memória.
- A imprensa democratizou os livros.
- A internet universalizou o acesso à informação.
Agora, a inteligência artificial inaugura uma nova etapa dessa trajetória. Pela primeira vez, uma tecnologia deixa de apenas armazenar ou transmitir conhecimento para participar ativamente de sua organização, síntese e produção textual.
Não estamos diante de mais uma inovação tecnológica.
Estamos diante de uma mudança de civilização.
Entretanto, como quase sempre acontece, insistimos em discutir seus efeitos mais visíveis, quando deveríamos refletir sobre suas consequências mais profundas.
Na educação, por exemplo, a pergunta que domina o debate é aparentemente simples:
É trapaça utilizar inteligência artificial para fazer trabalhos escolares?
A pergunta ganhou novo impulso após uma reportagem publicada pelo The New York Times, que mostrou o desconforto de professores e gestores diante do uso crescente de ferramentas como ChatGPT por estudantes. A mesma reportagem revelou outro aspecto curioso: muitos desses professores utilizam a própria inteligência artificial para preparar aulas, elaborar exercícios, corrigir redações, planejar atividades e acompanhar alunos com dificuldades.
A contradição é evidente.
Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
O verdadeiro problema não é descobrir se um estudante utilizou IA para escrever uma redação.
O verdadeiro problema é perceber que continuamos avaliando estudantes como se estivéssemos vivendo na sociedade industrial, enquanto a inteligência artificial inaugura uma transformação comparável — e talvez superior — à invenção da escrita, da imprensa e da internet.
A discussão sobre “cola” é apenas a superfície de uma questão muito mais profunda.
A inteligência artificial não inaugura uma crise da educação.
Ela inaugura uma crise da relevância humana.
O falso debate sobre a cola
Sempre que uma tecnologia disruptiva surge, a reação inicial costuma ser o medo.
Foi assim com a imprensa, acusada de banalizar o conhecimento.
Foi assim com a calculadora, acusada de destruir o raciocínio matemático.
Foi assim com a internet e, depois, com os mecanismos de busca, que supostamente acabariam com a memória humana.
Agora acontece exatamente o mesmo com a inteligência artificial.
Discutimos se ela facilita a cola quando deveríamos perguntar algo muito mais importante.
Que tipo de inteligência a escola deve desenvolver numa época em que praticamente qualquer resposta pode ser produzida em poucos segundos?
Essa mudança de perspectiva altera completamente o debate.
Durante séculos, a educação foi organizada para ensinar pessoas a responder perguntas.
Hoje, respostas deixaram de ser escassas.
Tornaram-se abundantes, instantâneas e praticamente gratuitas.
O recurso verdadeiramente escasso passou a ser outro.
- Discernimento.
- Pensamento crítico.
- Capacidade de formular boas perguntas.
- Julgamento ético.
- Criatividade.
A educação do século XXI talvez tenha de abandonar definitivamente a lógica da repetição para assumir uma missão muito mais complexa: ensinar seres humanos a pensar num mundo em que as máquinas já respondem.
Domenico De Masi enxergou o problema antes de quase todos
Muito antes da explosão da inteligência artificial generativa, Domenico De Masi já percebia que a grande transformação do século XXI não seria tecnológica.
Seria social.
Em O Futuro do Trabalho, publicado em 1998, ele observava que as máquinas deixariam de substituir apenas o esforço físico para avançar progressivamente sobre atividades intelectuais.
Ao mesmo tempo, empresas e governos continuariam perseguindo o mesmo objetivo econômico: produzir cada vez mais com cada vez menos trabalho humano.
O paradoxo não estava na tecnologia.
Estava na incapacidade da sociedade de reorganizar-se diante dela.
Como o próprio De Masi advertia, as máquinas evoluem muito mais rapidamente do que os hábitos, as mentalidades e as instituições.
Essa talvez seja uma das frases mais atuais já escritas sobre inteligência artificial.
Ele identificou três desafios que continuam sem resposta.
Como redistribuir uma riqueza que cresce continuamente quando o trabalho deixa de ser seu principal fator de produção?
Como reeducar milhões de pessoas que construíram sua identidade em torno do trabalho para que encontrem sentido também no tempo livre, no ócio criativo, na cultura, na ciência e nas relações humanas?
E como oferecer oportunidades dignas a bilhões de pessoas que jamais tiveram acesso pleno aos benefícios produzidos pelo próprio progresso tecnológico?
Quase trinta anos depois, continuamos sem responder a nenhuma dessas perguntas.
Ao contrário.
A inteligência artificial tornou todas elas ainda mais urgentes.
Harari vai além: talvez o problema já não seja a exploração
Se Domenico De Masi antecipou o impacto da automação sobre o trabalho, Yuval Noah Harari levou essa reflexão a um patamar ainda mais inquietante.
Em 21 Lições para o Século XXI, Harari sustenta que a inteligência artificial poderá tornar bilhões de pessoas economicamente desnecessárias. Não se trata apenas de desemprego tecnológico, fenômeno que acompanha todas as revoluções industriais. O que está em jogo é algo qualitativamente diferente.
Pela primeira vez, uma tecnologia pode substituir seres humanos não apenas em tarefas repetitivas ou braçais, mas também em atividades intelectuais que, durante séculos, acreditamos serem exclusivas da inteligência humana.
- Médicos.
- Advogados.
- Professores.
- Jornalistas.
- Programadores.
- Pesquisadores.
- Tradutores.
- Escritores.
Nenhuma profissão baseada predominantemente no processamento de informação pode afirmar, hoje, estar completamente imune à inteligência artificial.
É nesse contexto que Harari introduz um conceito perturbador: o surgimento de uma nova classe social — a dos irrelevantes.
Durante a Revolução Industrial, milhões de trabalhadores foram explorados. A exploração era injusta, mas pressupunha algo fundamental: o trabalhador ainda era necessário. Havia conflito porque havia dependência econômica.
A inteligência artificial altera essa lógica.
O risco deixa de ser apenas a exploração.
Passa a ser a irrelevância.
Harari resume esse dilema de forma contundente: talvez seja muito mais difícil lutar contra a irrelevância do que contra a exploração.
Essa afirmação merece ser cuidadosamente refletida.
Ao longo da história, movimentos sociais, sindicatos e legislações trabalhistas foram capazes de reduzir jornadas, ampliar direitos e melhorar as condições de trabalho justamente porque o trabalhador continuava sendo indispensável ao sistema produtivo.
Mas o que acontece quando parcelas crescentes da população deixam de ser economicamente necessárias?
Como reivindicar direitos de quem já não é considerado essencial?
Essa talvez seja a questão política mais importante do século XXI.
O dilema deixa de ser:
Como evitar ser explorado?
E passa a ser:
Como continuar sendo relevante?
Mais do que uma mudança econômica, trata-se de uma mudança antropológica. Durante séculos, o trabalho foi o principal elemento organizador da identidade humana. Perguntamos às pessoas “o que você faz?” porque, em grande medida, aquilo que fazemos tornou-se sinônimo de quem somos.
Se o trabalho deixar de ocupar essa posição central, será necessário reconstruir não apenas os modelos econômicos, mas também os fundamentos psicológicos, culturais e educacionais que sustentam nossa compreensão da vida em sociedade.
É exatamente nesse ponto que as reflexões de De Masi e Harari convergem.
Ambos afirmam que o verdadeiro problema nunca foi tecnológico.
A tecnologia continuará avançando.
A grande dúvida é se a sociedade conseguirá acompanhá-la.
A escola continua preparando alunos para um mundo que está desaparecendo
Se aceitarmos que De Masi e Harari estão corretos, torna-se inevitável uma pergunta desconfortável.
Estamos preparando os jovens para qual mundo?
Observando grande parte dos sistemas educacionais, a resposta parece evidente.
Continuamos formando estudantes para uma realidade que já começa a desaparecer.
Ainda valorizamos a memorização acima da compreensão.
A repetição acima da criatividade.
A resposta correta acima da pergunta inteligente.
A reprodução de conteúdos acima da construção do conhecimento.
Boa parte das avaliações escolares continua premiando exatamente aquilo que a inteligência artificial executa com extraordinária eficiência.
- Memorizar.
- Resumir.
- Traduzir.
- Resolver exercícios padronizados.
- Produzir textos previsíveis.
- Organizar informações.
Durante muito tempo essas competências fizeram sentido. Eram indispensáveis numa economia baseada na escassez de informação.
Hoje vivemos exatamente o oposto.
A informação tornou-se abundante.
O recurso escasso passou a ser a capacidade de interpretá-la.
Nesse novo cenário, algumas habilidades assumem um protagonismo inédito.
- Criatividade.
- Curiosidade.
- Imaginação.
- Pensamento crítico.
- Capacidade de formular boas perguntas.
- Integração entre diferentes áreas do conhecimento.
- Discernimento ético.
- Empatia.
Essas competências sempre foram importantes.
A diferença é que agora se tornaram praticamente insubstituíveis.
E aqui reside um dos maiores paradoxos da inteligência artificial.
Quanto mais sofisticadas se tornam as máquinas, mais valiosas se tornam as características que nos tornam humanos.
Talvez nunca tenha sido tão verdadeiro afirmar que a missão da educação deixou de ser ensinar respostas.
Seu verdadeiro desafio passa a ser formar pessoas capazes de produzir perguntas que nenhuma máquina conseguiria formular sozinha.
O futuro do livro: da informação à construção de sentido
A inteligência artificial obriga-nos a revisitar uma pergunta que, há poucos anos, parecia impensável.
Ainda faz sentido escrever livros?
Como editor, confesso que essa talvez tenha sido a pergunta que mais me inquietou desde o surgimento da IA generativa.
Afinal, durante mais de cinco séculos, desde a imprensa de Johannes Gutenberg, o livro ocupou um lugar privilegiado na preservação e na difusão do conhecimento.
Ele era, simultaneamente, memória, registro, fonte de consulta e instrumento de formação intelectual.
Hoje, qualquer sistema de inteligência artificial é capaz de recuperar, organizar e sintetizar milhões de informações em poucos segundos.
À primeira vista, isso parece reduzir drasticamente a importância do livro.
Mas talvez esteja acontecendo exatamente o contrário.
A história da civilização pode ser compreendida como a história das grandes revoluções na produção e na circulação do conhecimento.
A escrita permitiu registrar a memória humana.
A imprensa democratizou o acesso aos livros.
A internet universalizou a informação.
Agora, a inteligência artificial inaugura uma quarta revolução: pela primeira vez, uma tecnologia deixa de apenas armazenar ou transmitir conhecimento para participar ativamente de sua organização, síntese e produção textual.
Isso muda tudo.
Ou quase tudo.
Porque existe algo que continua profundamente humano.
O significado.
Um e-mail que me fez refletir
Recentemente, uma querida autora da Synergia respondeu a um convite para escrever seu terceiro livro.
A resposta foi surpreendente.
“Bom dia, Jorge.
Em resposta à sua proposta de escrever meu terceiro livro na área, tenho a dizer que simulei um livro na IA e ela me entregou, em dez minutos, o livro inteiro.
Sendo assim, ficou claro que deveríamos desenvolver outra ideia para estocar e repassar as informações.”
Confesso que li aquela mensagem várias vezes.
Não porque a inteligência artificial tivesse escrito um livro em dez minutos.
Isso era apenas uma questão de tempo.
O que realmente me chamou a atenção foi outra coisa.
A autora acreditava que aquilo era, de fato, um livro.
E foi exatamente nesse momento que compreendi que a discussão jamais foi tecnológica.
Ela sempre foi epistemológica.
Informação não é conhecimento
Vivemos uma época em que essas palavras passaram a ser usadas como sinônimos.
- Não são.
- Informação organizada não é conhecimento.
- Conhecimento não é compreensão.
- Compreensão não é sabedoria.
A inteligência artificial organiza informações com uma velocidade impressionante.
- Relaciona conceitos.
- Resume artigos.
- Traduz idiomas.
- Produz textos tecnicamente corretos.
Mas isso não significa, necessariamente, que compreenda aquilo que escreve.
Muito menos que produza sabedoria.
Essa continua sendo uma construção humana.
Talvez seja justamente aí que o livro reencontre sua vocação mais nobre.
Durante muito tempo, imaginamos que sua principal função fosse armazenar informações.
Hoje percebemos que essa tarefa pode ser realizada com enorme eficiência por sistemas de inteligência artificial.
O livro continua necessário por outro motivo.
- Ele organiza ideias.
- Constrói argumentos.
- Relaciona conhecimentos.
- Apresenta dúvidas.
- Propõe interpretações.
- Convida à reflexão.
- Forma pensamento.
Enquanto a inteligência artificial responde perguntas, o bom livro continua ensinando o leitor a pensar sobre elas.
O novo papel do editor
Essa transformação também altera profundamente o papel do editor.
Durante séculos, editar significava, em grande medida, selecionar, revisar, organizar e publicar informações.
Tudo isso continuará importante.
Mas deixará de ser suficiente.
No século XXI, talvez a principal missão do editor seja outra.
- Separar informação de conhecimento.
- Conhecimento de sabedoria.
- Ruído de significado.
A inteligência artificial produzirá uma quantidade praticamente infinita de textos.
- Mas quantidade nunca foi sinônimo de qualidade.
- Nunca foi sinônimo de originalidade.
- Nunca foi sinônimo de pensamento.
Paradoxalmente, quanto maior for a abundância de textos produzidos por máquinas, maior será o valor de obras capazes de oferecer reflexão, contexto, interpretação e visão crítica.
É exatamente isso que diferencia um livro de um conjunto de palavras organizadas.
O paradoxo do conhecimento
Existe um paradoxo fascinante em tudo isso.
Durante décadas acreditamos que o conhecimento era um problema de acesso.
Hoje descobrimos que acesso já não é o principal desafio.
O verdadeiro desafio passou a ser discernimento.
Nunca tivemos tanta informação disponível.
Nunca produzimos tantos textos.
Nunca tivemos respostas tão rápidas.
E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil distinguir informação de conhecimento, conhecimento de sabedoria e verdade de mera plausibilidade estatística.
Talvez este seja o maior legado da inteligência artificial.
Ela não diminui o valor do conhecimento.
Ela revela que sempre confundimos informação com conhecimento.
E talvez seja justamente agora que livros, professores, pesquisadores e editores recuperem sua missão mais importante.
Não a de fornecer respostas.
Mas a de ensinar a fazer as perguntas que realmente importam.
Fontes recomendadas
Matéria do New York Times (Learning Network)
Are Students Cheating When They Use A.I. for Their Schoolwork?
Reportagem-base de Dana Goldstein
Teachers Worry About Students Using A.I. But They Love It for Themselves
Artigo da Associated Press
One Tech Tip: Do’s and don’ts of using AI to help with schoolwork
Debate recente sobre professores usando IA
When students push back on professors using AI
Pesquisa científica
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