A notícia da implantação de um centro de computação quântica na Paraíba foi recebida por muitos como um marco científico para o Brasil. À primeira vista, trata-se de uma conquista tecnológica capaz de inserir o país em uma das áreas mais avançadas do conhecimento humano.
Mas será que estamos diante apenas de um avanço científico?
Ou estamos testemunhando um capítulo brasileiro de uma disputa global muito maior?
A computação quântica tornou-se uma das tecnologias estratégicas mais importantes do século XXI. Ela promete revolucionar a inteligência artificial, a criptografia, a defesa, a modelagem climática, a descoberta de medicamentos, a gestão energética e praticamente todos os setores intensivos em processamento de dados.
Por essa razão, a corrida quântica deixou de ser apenas uma competição acadêmica. Ela passou a integrar o núcleo das estratégias nacionais das grandes potências.
Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia investem bilhões de dólares na busca pela supremacia tecnológica. O domínio da computação quântica pode representar, no século XXI, o que o domínio do petróleo representou no século XX.
Nesse contexto, a chegada de tecnologia quântica ao Brasil desperta questões que vão muito além da ciência.
O primeiro ponto é distinguir acesso tecnológico de soberania tecnológica.
Possuir um computador quântico não significa dominar a tecnologia que o tornou possível.
O fato de um computador quântico ser instalado na Paraíba não significa, necessariamente, que o Brasil tenha alcançado soberania tecnológica. Dependendo da arquitetura do projeto, pode significar apenas que estamos recebendo equipamentos desenvolvidos no exterior, da mesma forma que utilizamos servidores, chips, sistemas operacionais, máquinas industriais, equipamentos médicos e inúmeras outras tecnologias que não dominamos integralmente.
Por exemplo, estamos há dias tentando, sem sucesso, emitir uma simples nota fiscal de serviço no
Portal de Gestão NFS-e – Contribuinte
https://www.nfse.gov.br/EmissorNacional/Login?ReturnUrl=%2fEmissorNacional
Esse exemplo da NFS-e é interessante porque toca justamente no tema da capacidade estatal e da complexidade tecnológica.
Se uma empresa brasileira fica dias sem conseguir emitir uma nota fiscal por instabilidade de um sistema governamental centralizado, isso revela problemas de:
- governança digital;
- arquitetura de sistemas;
- interoperabilidade;
- experiência do usuário;
- gestão de infraestrutura crítica;
- capacidade de execução do Estado.
Isso não significa que o Brasil não possua excelentes cientistas ou engenheiros. Possui. O problema costuma estar na transformação do conhecimento científico em capacidade industrial, tecnológica e operacional pelo Estado.
A verdadeira soberania está no domínio dos semicondutores, dos algoritmos, das patentes, dos materiais estratégicos, das cadeias produtivas e da capacidade de inovação contínua.
O Brasil possui pesquisadores de excelência, mas historicamente enfrenta dificuldades para transformar conhecimento científico em capacidade industrial e tecnológica.
O paradoxo é evidente.
Enquanto se discute computação quântica, empresas brasileiras convivem diariamente com instabilidades em sistemas públicos digitais essenciais, como plataformas de emissão de notas fiscais eletrônicas, registros públicos e diversos serviços governamentais.
A pergunta inevitável é:
Estamos entrando na corrida quântica ou apenas hospedando a corrida de outros?
A questão torna-se ainda mais relevante quando observamos o cenário geopolítico internacional.
A competição entre Estados Unidos e China já não se limita ao comércio internacional. Ela envolve inteligência artificial, semicondutores, telecomunicações, infraestrutura digital, energia, espaço, defesa e agora computação quântica.
A América Latina voltou a ocupar posição estratégica nesse tabuleiro.
Durante décadas, analistas de relações internacionais descreveram a região como área de influência prioritária dos Estados Unidos. Nos últimos anos, entretanto, a presença econômica, tecnológica e diplomática chinesa cresceu significativamente em diversos países latino-americanos.
Nesse contexto, surgem questionamentos legítimos.
A instalação de infraestrutura tecnológica avançada apoiada por tecnologia chinesa na América Latina possui apenas objetivos científicos?
Ou integra uma estratégia mais ampla de expansão de influência geopolítica?
A escolha do Brasil possui motivações exclusivamente acadêmicas?
Ou também está relacionada à posição geográfica do país, ao tamanho de seu mercado, à sua relevância diplomática e à disponibilidade de recursos minerais estratégicos?
As chamadas terras raras merecem atenção especial.
Esses minerais são fundamentais para a fabricação de semicondutores, baterias, equipamentos militares, sistemas de comunicação, turbinas e tecnologias avançadas.
Quem controla o acesso a esses recursos controla parte importante da economia tecnológica global.
Sob essa perspectiva, alguns analistas poderiam argumentar que a computação quântica representa apenas uma das faces visíveis de uma disputa muito maior envolvendo recursos naturais, cadeias produtivas e influência geopolítica.
Outro elemento relevante é o atual contexto político.
Os governos atualmente no poder em Brasília e Washington possuem visões de mundo distintas e, frequentemente, posições divergentes em temas internacionais.
Isso não significa, necessariamente, conflito entre Estados, mas pode influenciar percepções estratégicas.
Seria possível que setores da administração americana interpretassem uma aproximação tecnológica entre Brasil e China como um movimento de reposicionamento geopolítico?
A resposta ainda é incerta.
Mas a própria existência da pergunta demonstra que a computação quântica já ultrapassou os limites da física e da engenharia.
Ela ingressou definitivamente no campo da estratégia nacional.
Mais importante do que responder essas questões é reconhecê-las.
A história demonstra que grandes transformações tecnológicas quase nunca são apenas tecnológicas.
A eletricidade transformou economias.
O petróleo redefiniu guerras.
A internet alterou a geopolítica.
A inteligência artificial está remodelando sociedades.
A computação quântica poderá fazer tudo isso simultaneamente.
Talvez a pergunta mais importante não seja se o Brasil terá acesso à computação quântica.
Talvez a pergunta correta seja:
Qual será o papel do Brasil na nova ordem tecnológica global que está sendo construída neste exato momento?


