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Angelita Habr-Gama: a mulher que mudou a cirurgia mundial e ensinou que “não” nunca é resposta

Angelita Habr-Gama (1933–2026): pioneira da cirurgia brasileira e referência mundial em coloproctologia.

A medicina brasileira perdeu, no dia 30 de maio de 2026, uma de suas maiores referências. Aos 93 anos, faleceu a professora, cirurgiã e pesquisadora Angelita Habr-Gama, nome que transcendeu fronteiras e se tornou sinônimo de excelência, inovação e perseverança.

Sua trajetória é uma dessas raras histórias que parecem destinadas a inspirar gerações.

Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, Angelita chegou a São Paulo ainda criança. O episódio que marcaria sua vida ocorreu cedo: a morte de um irmão por apendicite despertou na família a consciência da importância do acesso à medicina e, de certa forma, ajudou a moldar o caminho que ela escolheria seguir.

Mas o caminho não seria fácil.

Em uma época em que a Medicina ainda era predominantemente masculina, Angelita precisou enfrentar preconceitos sucessivos. Primeiro, a resistência do próprio pai, que preferia vê-la professora. Depois, a descrença de professores que consideravam a cirurgia uma profissão inadequada para mulheres.

Sua resposta foi dada da forma mais contundente possível: pelo mérito.

Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em 1952 e tornou-se a primeira mulher a realizar residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP. Mais tarde, enfrentaria outra barreira histórica ao tornar-se a primeira mulher admitida no Hospital St. Mark’s, em Londres, então o mais importante centro mundial dedicado às doenças colorretais.

O que poderia ter sido apenas uma carreira brilhante transformou-se em algo muito maior.

A cientista que mudou paradigmas

Angelita Habr-Gama não se limitou a reproduzir conhecimentos. Ela produziu conhecimento.

Sua contribuição mais revolucionária surgiu na década de 1990, quando desenvolveu, juntamente com sua equipe, uma abordagem inovadora para o tratamento do câncer de reto.

Até então, a cirurgia era considerada praticamente inevitável. Em muitos casos, isso significava a remoção do reto e do esfíncter anal, obrigando o paciente a conviver permanentemente com uma bolsa de colostomia.

Angelita ousou questionar um paradigma consolidado.

A partir de rigorosas pesquisas clínicas, demonstrou que pacientes que apresentassem resposta completa à quimioterapia e radioterapia poderiam ser acompanhados cuidadosamente, sem necessidade imediata de cirurgia. Surgia assim o protocolo internacionalmente conhecido como Watch and Wait (“Observar e Esperar”).

A proposta inicialmente enfrentou resistência, como acontece com quase toda inovação disruptiva na ciência. Mas os resultados falaram mais alto.

Décadas depois, a estratégia tornou-se referência mundial e passou a integrar diretrizes internacionais para o tratamento do câncer retal, beneficiando milhares de pacientes ao redor do mundo e preservando sua qualidade de vida.

Poucos pesquisadores podem afirmar que mudaram a prática médica global.

Angelita pode.

Uma carreira construída sobre coragem

Ao longo de sua trajetória, acumulou títulos, homenagens e reconhecimentos que a colocaram entre os maiores nomes da medicina contemporânea.

Foi Professora Emérita da FMUSP, membro de inúmeras sociedades científicas nacionais e internacionais, destaque em rankings globais de cientistas e, em 2023, tornou-se a primeira mulher a receber a Medalha Bigelow, uma das mais importantes honrarias da cirurgia mundial, concedida pela Sociedade de Cirurgia de Boston.

Ainda assim, manteve uma característica rara entre os verdadeiramente grandes.

A humildade.

Ao receber a medalha, declarou:

“Sempre trabalhei por gosto e prazer. O sucesso foi uma consequência do gosto e da dedicação ao trabalho.”

A frase resume uma vida inteira.

O legado que permanece

Em tempos marcados pela busca por resultados rápidos e reconhecimento instantâneo, a história de Angelita Habr-Gama nos lembra que as transformações mais profundas são construídas ao longo de décadas de trabalho consistente, disciplina intelectual e compromisso com o conhecimento.

Seu legado não está apenas nos artigos científicos, nas técnicas cirúrgicas ou nos prêmios recebidos.

Está nos milhares de pacientes que tiveram suas vidas transformadas.

Está nos médicos que ela formou.

Está nos pesquisadores que seguirão ampliando as fronteiras da ciência graças aos caminhos que ela abriu.

E está, sobretudo, no exemplo de uma mulher que ouviu inúmeros “nãos” ao longo da vida e decidiu transformá-los em combustível para realizar o impossível.

Na Synergia Editora, que há quase duas décadas se dedica à disseminação do conhecimento científico, técnico e profissional, prestamos nossa homenagem a uma das maiores cientistas da história da medicina brasileira.

Angelita Habr-Gama parte deixando um vazio impossível de preencher.

Mas deixa também algo muito maior:

um legado que continuará salvando vidas por muitas gerações.

Obrigado, Professora Angelita.

A ciência brasileira lhe deve muito.

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